É nas vinhas plantadas em chão de areia em pé-franco, as quais sobreviveram à filoxera, que se produzem alguns dos mais incríveis vinhos de Portugal.
Parece impossível.
Mas em Colares, entre a Serra de Sintra e o Atlântico, esta é uma realidade que permanece viva.
Os Vinhos de Colares são o resultado de uma das mais extraordinárias formas de viticultura de Portugal, uma vinha moldada pelo vento, pela areia, pela humidade e pelo mar, onde castas autóctones como o Ramisco e a Malvasia de Colares dão origem a vinhos de enorme personalidade, frescura, mineralidade, salinidade e capacidade de envelhecimento.
Hoje, esta pequena região continua a guardar um dos patrimónios vitivinícolas mais raros do país.
Vamos descobrir porquê.
1. O Terroir: Onde a Serra Encontra o Atlântico
A Região Demarcada de Colares, sub-região vitivinícola da Região de Lisboa, situa-se no concelho de Sintra, entre a Serra de Sintra e o Oceano Atlântico.
É uma das regiões vitivinícolas mais pequenas e ocidentais de Portugal, demarcada em 1908. A sua localização determina grande parte da personalidade dos vinhos, com a influência do Atlântico permanentemente presente, seja através dos ventos fortes e salgados, da humidade elevada ou do efeito moderador das temperaturas durante o verão.
A Serra de Sintra desempenha também um papel importante. A sua presença contribui para a formação de nevoeiros e para a manutenção de níveis elevados de humidade, criando um microclima muito particular, onde se faz sentir na amplitude térmica diária.
Aqui, a videira não cresce num ambiente fácil. Cresce num território onde o mar condiciona a temperatura, o vento dificulta o cultivo e a humidade acrescenta ainda mais desafios.
Mas é precisamente esta combinação que ajuda a criar vinhos tão diferentes.
[ Um Terroir Único ] ➔ Atlântico → Serra → Ventos → Humidade
2. Os Solos: A Areia que Protegeu as Vinhas
Se existe um elemento capaz de explicar a singularidade dos vinhos DOC de Colares, esse elemento é a areia.
A região apresenta dois grandes tipos de solo: o Chão de Areia, constituído por areias de duna assentes sobre materiais consolidados, e o Chão Rijo, de natureza argilo-calcária e localizado mais para o interior. É no Chão de Areia, junto ao Atlântico, que se encontram as vinhas destinadas aos Vinhos DOC Colares.
Durante a crise da filoxera que devastou as vinhas europeias no século XIX, as características destes solos arenosos ajudaram a proteger as raízes das videiras de Colares, provavelmente porque os insetos não conseguiram alcançar as raízes das videiras que se encontram vários metros abaixo do superfície.
Enquanto grande parte da Europa teve de recorrer à enxertia em porta-enxertos americanos, naturalmente resistentes à filoxera, algumas das vinhas de Colares conseguiram permanecer em pé-franco, ou seja, plantadas sem recurso a enxertia.
É por isso que ainda hoje podemos encontrar videiras de Ramisco e Malvasia de Colares plantadas diretamente na areia.
[ Areia Profunda ] ➔ Pé-Franco → Sobrevivência à Filoxera → Património Vivo
Mas cultivar uma vinha nestas condições não é simples!
As raízes precisam de penetrar profundamente por baixo da areia, sendo o trabalho de plantação particularmente exigente, implicando por vezes remover toda a areia até encontrar chão sólido para plantar a videira, recolocando posteriormente a mesma, ou mesmo instalar as videiras em solo arenoso, com uma camada de areia entre cerca de 1,5 e 2,5 metros antes de atingir o “solo rijo”.
3. A Arquitetura das Vinhas: Uma Luta Contra o Vento
Em Colares, até a forma como a vinha é conduzida conta uma história.
A proximidade do Atlântico significa que as plantas estão sujeitas a ventos fortes e carregados de sal. Para as proteger, tradicionalmente recorreu-se a paliçadas de canas, que fazem hoje parte da paisagem característica da região.
As próprias videiras podem crescer de forma baixa e rastejante, protegidas tanto quanto possível da força dos elementos.
Na viticultura tradicional de Colares, o trabalho é muitas vezes realizado manualmente e as condições do terreno tornam a mecanização difícil. É uma viticultura que exige tempo, conhecimento e persistência.
4. As Castas Nobres: Ramisco e Malvasia de Colares
Se o solo e o clima são fundamentais, são as castas que transformam essa identidade em vinho; e em Colares há duas protagonistas incontornáveis.
Ramisco — A Alma dos Tintos: O Ramisco é a grande casta tinta de Colares. Autóctone da região e tradicionalmente plantada em pé-franco nos solos arenosos, dá origem a tintos de grande personalidade, austeros na juventude, com acidez marcada, estrutura tânica, mas transformados pelo tempo, com reconhecido potencial de envelhecimento.Com o estágio e a evolução em garrafa, os taninos tornam-se mais integrados e surgem camadas aromáticas mais complexas, mantendo uma frescura que é uma das suas grandes características. É um vinho que recompensa a paciência.
Malvasia de Colares — A Expressão Branca do Atlântico: Nos brancos, a grande protagonista é a Malvasia de Colares. É uma casta que encontra nas condições atlânticas da região uma expressão muito particular. Os vinhos podem apresentar aromas florais e frutados, mas é na boca que a identidade se torna mais evidente: acidez, mineralidade e uma característica sensação salgada. É difícil provar um grande branco de Colares sem sentir a influência do oceano.
Outras Castas: Brancas – Arinto, Jampal, Galego Dourado | Tintas – Molar, João Santarém (Castelão), Pereira Matias
5. Então, afinal, a que sabem os Vinhos de Colares? Frescura, Salinidade…
A resposta depende naturalmente da casta e da vinificação, mas existe um fio condutor.
Nos brancos de Malvasia de Colares encontramos acidez viva, mineralidade, notas florais e frutadas e uma sensação salina que prolonga o final de boca. São vinhos que podem ser extremamente gastronómicos, sobretudo quando acompanhados por produtos do mar.
Nos tintos de Ramisco encontramos uma personalidade diferente. A acidez elevada combina-se com taninos firmes e uma estrutura que permite ao vinho evoluir durante muitos anos. Com o tempo, a rusticidade inicial dá lugar a maior elegância e complexidade. É precisamente esta capacidade de envelhecimento que tornou o Ramisco tão especial.
Colares não procura produzir vinhos fáceis de definir.
Como Harmonizar à Mesa?
A identidade atlântica de Colares torna os seus vinhos particularmente interessantes à mesa.
Marisco: A Malvasia de Colares encontra uma afinidade natural com ostras, percebes, amêijoas, camarão e outros mariscos.
Peixe: Peixe grelhado, robalo, dourada, pregado ou pratos tradicionais de peixe são excelentes companheiros para os brancos de Colares.
Carnes e Caça: A estrutura e os taninos tornam-no particularmente interessante com carnes assadas, caça e pratos de cogumelos. A própria Adega Regional de Colares recomenda esta combinação para os seus tintos de Ramisco.
Queijos: Os brancos mais estruturados podem acompanhar queijos de pasta mole e de intensidade média, enquanto os tintos mais evoluídos podem encontrar equilíbrio em queijos curados.
As Nossas Sugestões:
Quinta de San Michel Malvarinto
Viúva Gomes Ramisco Tinto DOC Colares 1965
Baías e Enseadas Malvasia Colares DOC
6. Um Património que Ainda Está Vivo
Durante décadas, a área de vinha de Colares diminuiu drasticamente. A pressão urbanística, a dificuldade de trabalhar a areia e a reduzida dimensão das parcelas tornaram a preservação deste património particularmente difícil.
Por isso, hoje, cada vinha velha de Colares representa muito mais do que matéria-prima para fazer vinho, representa memória, e existe uma nova geração de projetos empenhada em recuperar este património.
Há uma característica dos Vinhos de Colares que merece uma atenção especial: a sua relação com o envelhecimento.
Conheça todos os Vinhos dos Colares
Conclusão: Uma Experiência Surpreendente !
Abrir uma garrafa antiga de Vinho de Colares não é não simplesmente beber um vinho velho; é beber a preservação da cultura portuguesa, na Denominação de Origem mais ocidental da Europa Continental.
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20/08/2026



